Entenda como a nova proposta de taxação do governo impacta seus investimentos em LCI e LCA. Saiba o que muda com o IR de 5%, impacto do IOF e como proteger sua carteira.
Mudanças à vista na renda fixa: o que está acontecendo?
O governo federal acaba de anunciar uma proposta que deve transformar o cenário da renda fixa no Brasil: o fim da isenção de Imposto de Renda sobre os rendimentos de LCI (Letra de Crédito Imobiliário) e LCA (Letra de Crédito do Agronegócio). Além disso, a medida reafirma a cobrança do IOF regressivo para resgates em menos de 30 dias.
A proposta prevê uma alíquota fixa de 5% de IR para pessoas físicas. Apesar de parecer baixa, a mudança traz impactos significativos para os investidores — especialmente os mais conservadores.
Entendendo o que são LCI e LCA

LCI e LCA são títulos de renda fixa emitidos por bancos com o objetivo de captar recursos para financiar os setores imobiliário e do agronegócio, respectivamente. Uma das grandes vantagens dessas aplicações sempre foi a isenção de Imposto de Renda, o que tornava os rendimentos mais atrativos em comparação com CDBs e outros ativos tributados.
Até então, o único imposto incidente sobre esses títulos era o IOF regressivo, válido apenas para resgates realizados antes de 30 dias. Fora isso, o lucro líquido ia direto para o bolso do investidor.
O que diz a nova proposta do governo
Segundo o Ministério da Fazenda, a proposta tem como objetivo “harmonizar a tributação dos investimentos financeiros”, eliminando distorções no mercado. A ideia é simples: todos os produtos da renda fixa passarão a contribuir com uma carga tributária mínima.
Pontos principais:
- Imposto de Renda de 5% sobre os rendimentos de LCI e LCA para pessoas físicas;
- IOF regressivo permanece para resgates antes de 30 dias;
- A medida poderá atingir também outros produtos hoje isentos, como CRI, CRA e debêntures incentivadas.
Por que o governo quer cobrar mais?
A resposta, nesse caso, é clara: trata-se de uma estratégia para elevar a arrecadação. Em meio a um cenário de reorganização fiscal, a proposta aparece como uma alternativa para o governo captar novas fontes de receita com menor impacto político.
Nesse sentido, a taxação sobre investimentos — sobretudo aqueles que favorecem as classes média e alta — representa um caminho para reforçar o caixa público sem a necessidade de aumentar tributos sobre o consumo ou a folha salarial. Por fim, a justificativa oficial está ancorada no princípio da chamada “justiça tributária”.
IOF em foco: como ele pesa na prática?
O IOF regressivo continua válido e, portanto, pode afetar fortemente o rendimento quando o investidor opta por resgatar o título antes de 30 dias. Com a nova proposta, além desse imposto, passa a incidir também o IR de 5%, criando, assim, uma camada dupla de tributação nos casos de resgates antecipados.
Para ilustrar, considere o seguinte exemplo prático: se você investir R$10.000,00 em uma LCA e realizar o resgate em apenas 20 dias, poderá pagar até 64% de IOF sobre o rendimento. Além disso, será cobrado mais 5% de Imposto de Renda. Como resultado, o ganho líquido despenca, o que torna o investimento pouco vantajoso nesse curto prazo.
Investimento de R$10.000,00 em LCA com resgate em 20 dias
- Rendimento anual considerado: 12% ao ano
- Rendimento proporcional em 20 dias: R$95,24
- IOF regressivo (20 dias = 36% sobre o rendimento): R$34,29
- Imposto de Renda fixo (5% sobre o rendimento após IOF): R$3,05
- Rendimento líquido final: R$57,90
Conclusão da simulação:
Mesmo que o rendimento bruto fosse de R$95,24, com a aplicação do IOF e do IR, o ganho real cai para R$57,90 — uma redução de mais de 39% em relação ao rendimento bruto.
Resgatar uma LCI ou LCA antes de 30 dias é altamente desvantajoso, especialmente com a nova tributação. Para valer a pena, o investidor deve respeitar o prazo mínimo de carência e comparar sempre o rendimento líquido entre produtos.
Investimentos antigos serão afetados?
Até o momento, não há definição oficial sobre a retroatividade da medida. Ou seja, ainda não se sabe se o novo IR valerá apenas para aplicações futuras ou se também atingirá os títulos já comprados.
Se a medida for retroativa, podem surgir ações judiciais por quebra de previsibilidade contratual. Entidades como a Febraban já se manifestaram, pedindo segurança jurídica e transição clara.
Efeitos no mercado imobiliário e agrícola
Com a nova taxação, os bancos terão mais dificuldade para captar recursos via LCI e LCA, o que pode:
- Aumentar o custo do crédito imobiliário e rural;
- Reduzir o volume de financiamento disponível para esses setores;
- Desestimular novos projetos de construção civil e produção agropecuária, sobretudo entre pequenos produtores e consumidores.
Ou seja, o impacto vai muito além do investidor: atinge diretamente dois setores estratégicos da economia nacional.
LCI e LCA ainda valem a pena?
Com a nova alíquota de 5% de IR, a atratividade dessas aplicações diminui, mas não desaparece. Ainda podem ser vantajosas se o banco oferecer taxas altas, especialmente quando comparadas a CDBs com IR regressivo (de 22,5% a 15%).
Contudo, será necessário:
- Recalcular os rendimentos líquidos com mais atenção;
- Comparar alternativas como CDBs, fundos e Tesouro Direto;
- Avaliar o prazo de liquidez, evitando perdas com IOF em prazos curtos.
Dicas para proteger seus investimentos
- Diversifique sua carteira – entre produtos tributáveis e isentos.
- Considere o Tesouro Direto – especialmente o Tesouro IPCA+ para prazos médios e longos.
- Busque CDBs com retorno acima de 100% do CDI – mesmo que sejam tributados.
- Evitar – LCI, LCA para não pagar IOF.
- Acompanhe o andamento da proposta no Congresso — ela ainda pode ser modificada para melhor ou piorar com a inclusão de novos produtos (quem sabe?).
Fim da isenção, início de um novo cenário
A proposta de taxar LCI e LCA, somada ao IOF existente, muda completamente a dinâmica dos investimentos conservadores no Brasil. O que antes era “certeza de isenção” agora exige análise, simulação e cálculo na hora de montar uma carteira.
Mais do que nunca o jogo mudou e o investidor precisa entender a nova regra. E quem deseja manter a rentabilidade precisa jogar com inteligência fiscal — porque o que importa, no fim, é o que entra no bolso.
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