Dona Janete tinha 72 anos quando decidiu, sem aviso prévio, que queria aprender a dançar tango. “Tango mesmo, não esse forrozinho de esquina, não não…”, dizia ela, com os olhos faiscando sob os óculos antigos. Não sabia o que era sinapse, não falava de neurociência, mas carregava algo ainda mais poderoso: a coragem de se reinventar.
No primeiro dia de aula, tropeçou nas próprias ideias. O corpo, acostumado a rotinas previsíveis, resistia. “Minhas pernas têm memória de supermercado”, brincava. Mas voltou. Semana após semana. E, com o tempo, sua postura mudou, os passos fluíam, e um leve sorriso tomava conta de seu rosto a cada giro.
Por fim, o que Dona Janete não sabia é que, naquele exato momento, seu cérebro estava passando por uma verdadeira reforma interna. Isso tem nome: neuroplasticidade.
O que é neuroplasticidade?
A neuroplasticidade é, em essência, a incrível capacidade do cérebro de se adaptar, se reorganizar e formar novas conexões neurais ao longo de toda a vida. Por muito tempo, acreditou-se que essa habilidade era privilégio da infância. No entanto, com o avanço das pesquisas, a ciência provou o contrário: o cérebro muda — e continua mudando, sempre.
Ou seja, a cada vez que você aprende algo novo, enfrenta um desafio, altera um hábito ou passa por um processo de recuperação, como após um trauma, seu cérebro não apenas registra a experiência. Pelo contrário, ele se transforma. Ele se reconstrói, moldando-se às suas escolhas e vivências.
O tango como ferramenta de reconfiguração cerebral
Quando Dona Janete aprendia os passos, ela não estava apenas treinando os pés. Na verdade, seu cérebro, silenciosamente, processava uma série de elementos ao mesmo tempo: ritmo, postura, orientação espacial, memória muscular e, claro, emoção. Cada novo movimento, por menor que fosse, traçava uma nova trilha neural.
Além disso, os desafios envolvidos nesse processo de aprendizagem estimulavam ainda mais o cérebro. A produção de novas sinapses era ativada, enquanto conexões já existentes se fortaleciam. Como resultado, ela se sentia mais alerta, mais animada e, segundo suas próprias palavras, “pensando melhor até na hora de escolher o feijão”.
Emoção também molda o cérebro
Estudos mostram que a neuroplasticidade também influencia e é influenciada pelas emoções. Pessoas que meditam, por exemplo, desenvolvem regiões do cérebro relacionadas à empatia, ao foco e à regulação emocional. Ou seja, podemos treinar até nossos sentimentos.
Dona Janete dizia que, desde o tango, sentia menos raiva de coisas pequenas. “Nem do Silvério eu brigo mais… e olha que ele deixa o chinelo no meio da sala todo santo dia.” O tango fez bem ao corpo, à mente e ao casamento.
Por que isso importa para você?
Talvez, em algum momento, você tenha se convencido de que não consegue mais mudar. Pode achar que já está velho demais para aprender inglês, disperso demais para meditar ou ansioso demais para trocar de carreira. No entanto, a neurociência vem mostrando exatamente o oposto: seu cérebro ainda está aprendendo — e continuará aprendendo, desde que você permita.
Afinal, a cada nova tentativa, por menor que pareça, você envia um recado poderoso: “Isso importa.” E o cérebro, que é atento e receptivo, escuta. Em seguida, ele molda. Depois, constrói. Por fim, reforça. Assim, aos poucos, ele vai se transformando junto com você.
O cérebro não é um tijolo, é argila
O mito do “cérebro fixo” já caiu. Hoje, sabemos que ele é moldável como barro fresco, e somos todos escultores da própria mente. A cada novo hábito, você redefine quem é. A cada desafio vencido,
você reprograma seus limites. E isso é empolgante, porque não há destino cerebral selado.
Mesmo diante de lesões, como AVCs, muitos pacientes se recuperam em função da neuroplasticidade: o cérebro redireciona funções perdidas para novas áreas. É um sistema vivo, resiliente, um gênio silencioso trabalhando dentro de você.
Uma dança com o tempo
Meses depois, Dona Janete se apresentou no festival da terceira idade da cidade. Rodou o salão de olhos fechados, entregue à orquestra. “Eu nunca imaginei que meu cérebro saberia dançar aos 72”, disse ela, rindo. Mas ele sabia. Sempre soube. Esperava apenas o convite.
O que Dona Janete descobriu na pista de dança é o que a ciência confirma nos laboratórios: o cérebro está vivo. Ele se refaz, aprende e muda. Com movimento, emoção, persistência, repetição e vontade. Não é preciso ser jovem, apenas ser curioso. Seu cérebro espera pela próxima coreografia. Pode ser um idioma, um instrumento, uma nova forma de olhar para a vida. O importante é manter-se em movimento.
No fim das contas, o tango era só um pretexto. O que Dona Janete dançava era ela mesma: uma mulher que entendeu que a idade existe, mas o cérebro tem outros planos.
Veja também: Neuroplasticidade e Cozinha: Como Meu Cérebro Mudou Quando Aprendi a Cozinhar
Sugestões de 4 livros sobre Neuroplasticidade
Para quem busca envelhecimento ativo e neuroplasticidade:
“O Cérebro Que Se Transforma” – Norman Doidge
Um dos livros mais populares sobre neuroplasticidade, com histórias reais e linguagem acessível.
“Neuroplasticidade” – Moheb Costandi (em inglês)
Um panorama conciso e científico sobre como o cérebro se adapta ao longo da vida.
“A Mente Organizada” – Daniel Levitin
Explora como reorganizar a mente em um mundo de informações excessivas, com base em neurociência cognitiva.
“O Cérebro e a Inteligência Emocional” – Daniel Goleman
Mostra como desenvolver competências emocionais pode transformar o funcionamento do cérebro em qualquer fase da vida.
🔍 Referência
- Instituto Brasileiro de Neurociência e Neuroteconlogia – BRAINN: Neuroplasticidade: o cérebro em alta performance
- Pós-Graduação USCS: Neuroplasticidade: Entendendo a Capacidade do Cérebro de se Adaptar e Aprender
- Frontiers.Org: Environmental Enrichment: Enhancing Neural Plasticity, Resilience, and Repair
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