O Futuro em Jogo: Quando a Biotecnologia Desafia a Identidade
Em um mundo onde a fronteira entre a vida e a morte se torna progressivamente difusa, surge a CALICO (California Life Company), subsidiária da Alphabet (empresa-mãe do Google), com uma missão ambiciosa: compreender o envelhecimento e, idealmente, prolongar a vida humana de forma significativa. Mais do que uma promessa científica, trata-se de um anseio filosófico, cultural e existencial — refletido em cada rugas que rejeitamos, em cada suplemento que ingerimos e em cada algoritmo que projeta nosso futuro biológico.
Embora seja conhecido o fato de que o corpo humano passa por um ciclo constante de renovação celular, a introdução de tecnologias que aceleram, direcionam ou manipulam esse processo em níveis moleculares impõe novas e desafiadoras questões: se formos continuamente otimizados, rejuvenescidos, manipulados — ainda seremos os mesmos? A biotecnologia não inaugura a mudança, mas redefine sua escala, ritmo e intenção.

A CALICO e o Sonho da Longevidade Estendida
Fundada em 2013, a CALICO busca entender os processos biológicos que influenciam o envelhecimento e encontrar meios de atenuar seus efeitos. Em parceria com instituições como o MIT e a Universidade da Califórnia, a empresa investe em áreas como genômica, bioinformática, farmacologia e inteligência artificial para estudar os mecanismos que governam a senescência celular e os limites da longevidade.
De acordo com a Nature Medicine, a CALICO estabeleceu parcerias de peso — como com a farmacêutica AbbVie — e direciona seus esforços para decifrar os mecanismos biológicos que governam o envelhecimento e as doenças relacionadas à idade. O objetivo é ir além da medicina paliativa e compreender, em nível molecular, como reverter ou retardar o próprio processo de envelhecer.
Ainda assim, o desafio não é apenas técnico. Paira uma pergunta filosófica: se somos capazes de rejuvenescer cada célula, substituir cada órgão, ou até mesmo migrar a consciência para suportes artificiais — ainda seremos nós? O “eu” que habita essa nova forma é uma continuidade ou uma duplicata?
Identidade em Fragmentos
Plutarco relata um antigo experimento mental conhecido como o paradoxo do navio de Teseu. Conta-se que os atenienses preservaram a embarcação usada pelo herói Teseu, substituindo suas partes conforme se deterioravam. Ao final de muitos anos, cada tábua, vela e mastro havia sido trocado — o que levou filósofos a se perguntarem: se nada do original restou, ainda é o mesmo navio?
De forma semelhante, o corpo humano passa por um ciclo contínuo de renovação: células da pele se regeneram a cada 2 a 4 semanas, o fígado se renova entre 300 e 500 dias, e até os ossos são constantemente remodelados. Nesse contexto, a substituição é lenta, integrada aos mecanismos naturais de equilíbrio do organismo.
No entanto, é justamente aqui que a biotecnologia altera o cenário. Em vez de depender da lentidão dos ciclos biológicos, ela propõe intervenções radicais: bioimpressão de órgãos, terapias gênicas, edição por CRISPR, e reprogramação celular. Com isso, a antiga questão filosófica da identidade ganha novos contornos — agora inserida no campo da biomedicina aplicada.
Henrietta Lacks: Coletado a Imortalidade de um Corpo

Henrietta Lacks, mulher afro-americana de origem humilde, morreu de câncer cervical em 1951, sem saber que uma parte de seu corpo escaparia da morte. Pesquisadores coletaram células de seu tumor — sem consentimento — e deram origem à linhagem HeLa, a primeira a se reproduzir indefinidamente em laboratório. Com sua capacidade de proliferação contínua, cientistas passaram a chamá-las de “imortais”, e elas se tornaram um dos pilares da biomedicina moderna. Vacinas, terapias contra o câncer, mapeamento genético — inúmeros avanços científicos passaram por essas células.
Mas, ao mesmo tempo em que HeLa representa o triunfo da ciência sobre a degeneração, também materializa um dilema ético e filosófico profundo. Rebecca Skloot, em A Vida Imortal de Henrietta Lacks, revela essa fratura: o corpo de uma mulher fragmentado, perpetuado como recurso técnico, enquanto sua identidade permanece silenciada. As células continuam vivas, mas quem — ou o quê — ainda existe nelas? Seriam vestígios de Henrietta ou apenas um código biológico autônomo, desligado de sua origem subjetiva?
HeLa se transforma, assim, em um espelho distorcido do paradoxo de Teseu: quando cada fragmento do ser é preservado apenas por sua função, ainda resta algo do sujeito original? Ou será que a biotecnologia, ao tentar manter a vida, acaba por esvaziá-la de significado?
Liquidez do Eu: Imortalidade em Tempos Instáveis
O sociólogo Zygmunt Bauman, em obras como Modernidade Líquida, Vida Líquida e Medo Líquido, discute com profundidade uma era caracterizada pela fluidez das instituições, dos vínculos e das identidades. Nesse cenário volátil, a promessa de uma imortalidade biológica não surge apenas como um avanço científico, mas também como a reatualização de um desejo ancestral — agora revestido com o brilho sedutor da tecnologia. No entanto, diante de um mundo em constante transformação, resta a pergunta: como sustentar um “eu” permanente em meio à instabilidade estrutural da modernidade?
Como o próprio Bauman afirma:
“vivemos tempos em que o futuro parece mais um abismo do que uma promessa”.
Dessa forma, podemos concluir que a CALICO, mais do que uma empresa voltada à biotecnologia, funciona como um reflexo simbólico das ansiedades contemporâneas. Medo da morte, da irrelevância, da obsolescência — todos esses fantasmas se condensam no imaginário que a empresa evoca e, em certa medida, alimenta.
Imortalidade em Fragmentos: Células, Cópias e Códigos
E se um corpo humano tiver todas as suas células substituídas por versões mais jovens, ou até por células cultivadas artificialmente? E se a memória puder ser copiada e carregada em sistemas computacionais ou neuropróteses?
- Esse novo ente é você?
- A memória basta para garantir a identidade?
- O que acontece com a subjetividade — ou a alma, se considerarmos uma visão espiritual?
Essas perguntas estão além da alçada técnica da CALICO. Por fim, seu foco é entender como mitigar a deterioração biológica. Mas, ao fazer isso, acaba por desencadear questões que desafiam os limites da ciência e da metafísica.
Continuaremos Sendo Nós Mesmos?
Talvez, no fundo, nossa obsessão com a longevidade não se trate propriamente de querer viver mais, mas, antes, de postergar — o quanto for possível — o confronto inevitável com o fim. Nesse contexto, a CALICO surge como um Teseu moderno: reconstruindo o corpo humano parte por parte, substituindo o que envelhece ou falha. No entanto, apesar de todos os avanços, o destino final dessa jornada permanece envolto em incerteza.
A identidade, que outrora foi concebida como um núcleo fixo, coeso e indivisível, parece hoje dissolver-se em uma lógica de fragmentação. Ela é, cada vez mais, uma construção fluida — moldada por dados, intervenções genéticas e decisões algorítmicas. Assim, pouco a pouco, tornamo-nos um mosaico instável de memórias, células modificadas e intenções projetadas, impulsionados não só pelo desejo de prolongar a existência, mas, sobretudo, pelo medo de deixarmos de ser.
Portanto, talvez o verdadeiro paradoxo não esteja mais no navio de Teseu, mas no próprio ser humano: ao tentar preservar sua essência, corre o risco de se reinventar tanto que, ao final, torne-se algo completamente estranho a si mesmo.
Referências
- BAUMAN, Zygmunt. Medo Líquido. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.
- SKLOOT, Rebecca. A Vida Imortal de Henrietta Lacks. Rio de Janeiro: Companhia das Letras, 2011.
- G1. Entenda o que é o CRISPR, ferramenta que consegue editar o DNA. Publicado em 20 de março de 2022.
- KENNEDY, Brian K. Geroscience: Linking Aging to Chronic Disease. Nature Medicine, vol. 20, 2014, p. 1362–1363. https://www.nature.com/articles/nm1214-1362